História

De torneiro mecânico a junior do Bangu

O ano era de 1989. Eu era estagiário do SENAI, como torneiro mecânico. As peladas eram algo comum. Sempre que sobrava um tempo lá estava eu jogando, mas ao mesmo tempo sonhando com uma chance mais séria. Fiz testes em vários clubes, só que não conseguia ter sucesso. Deu uma tristeza enorme e uma vontade de largar. Importante era seguir brincando no Mordomia FC, meu time de futebol, sem muita responsabilidade. Só que este Mordomia ainda ia me reservar uma grande surpresa.

Um dia, joguei contra o Bangu e como líbero, por ironia do destino, tive destaque. Apesar da goleada por 7 a 2 para o time de juniores banguense, que era muito forte na ocasião, fiz um gol e chamei a atenção do pessoal. Logo foi pedido que eu permanecesse fazendo treinos no clube e em 1990 já estava no grupo, mas ainda sem chances de jogar. Minha vida mudou e tive que trancar meu estágio no SENAI e seguir feliz pela oportunidade. Era a hora que queria e pela qual tanta batalhara. Meu primeiro treinador no Bangu foi o Rogério, que me ajudou demais na orientação e principalmente na administração da paciência esperando pela chance.

Veio a chance no profissional e as experiências vieram juntas

Aos 21 anos, eu estava aos poucos entrando no esquema profissional e depois de um ano parado por uma lesão no joelho tive minha estréia em 1993 no banco de reservas num jogo contra o Volta Redonda, o que recordo até hoje. Foi muito especial, afinal esperava por isto há muito tempo. Era demais, mesmo no banco, saber que estava ali realizando um sonho. E veio o primeiro jogo. E logo contra o Flamengo. O ano era de 1993 e a partida em casa, no estádio Proletário Guilherme da Silveira. Melhor ambiente era impossível. Só que o tiro saiu pela culatra e o Flamengo, após vencer por um a zero, obrigou o treinador Moisés a me retirar do jogo. Confesso que chorei demais, mas sabia que aquilo não era o fim. Muita coisa ainda aconteceria.

Voltei a ser aproveitado em outras oportunidades pelo então treinador Sérgio Cosme e em 1996 fui para o Criciúma, onde, fazendo 12 partidas, ganhei uma experiência muito boa e só não foi melhor por que na volta, ai já no Vasco, não tive oportunidade com Antônio Lopes. Em 97, voltei então para o Bangu e passei a peregrinar em outros clubes, como em 98, quando fui para o interior de São Paulo, jogar no Bragantino, emprestado. Foram experiências que valeram, até pelo lado negativo, já que em Bragança Paulista, por exemplo, recebi apenas um mês. A grande oportunidade ainda estava por chegar e foi exatamente em 99 quando em jogos contra o Fluminense impressionei o treinador tricolor Carlos Alberto Parreira. Num 0 a 0 em Laranjeiras, fiz uma de minhas melhores partidas como jogador do Bangu e isto foi o suficiente para que fosse jogar no clube que me tornou conhecido e ídolo de uma torcida. O acordo aconteceu e o desafio era disputar a terceira divisão do Brasileiro pelo Flu. No entanto, deu tudo certo. O Flu foi campeão, subiu e no ano seguinte acabou sendo recolocado na primeira divisão. Em um ano as coisas melhoraram assustadoramente e comecei a ganhar espaço como jogador importante num clube grande, sendo o símbolo que sou até hoje.

O trabalho de Parreira foi importante para que me tornasse um jogador mais completo. Eu tinha muita força, mas era sem jeito. Ele me orientou a ser mais comedido, sem fazer tanta falta. Deveria ficar na frente do adversário e tomar a bola sem empurrar ou entrar duro. Tanto treinei que aperfeiçoei este fundamento. Uma das maiores lições que tirei em anos de trabalho com bons treinadores era escutar. Cada treinador teve uma parcela importante para passar e neste rol estão Sérgio Cosme, Valdir Espinosa, Oswaldo de Oliveira e o próprio Parreira. Sérgio Cosme acreditou em mim e isto não esqueço, assim como o professor Parreira, que me deu a chance num clube grande. Todos são bons e deram toques diferentes.
Lições de vida.

E como são as coisas. Podia ter me tornado um torneiro mecânico. Deus reservou um destino diferente para mim e para a minha família. Faço o que gosto, recebo um bom salário e sou feliz. Mas para chegar até aqui foi complicado. As grandes fórmulas são trabalhar muito para conseguir melhorar e sorrir. Se você não se dedicar intensamente, dificilmente vai conseguir sucesso. E vale o preço do esforço, afinal me sinto querido pelas pessoas e senti isto quando voltei do Qatar. A recepção foi enorme e os pedidos pela minha volta me emocionaram.

Outra passagem muito interessante foi em 2000 na seleção. Fui convocado pela primeira e única vez para defender meu país, na Copa das Confederações e acho que podia ter dado mais. Estava num grande momento no Fluminense e foi frustrante não poder fazer mais pelo Brasil. Seleção é uma coisa que passou e que curto e torço, principalmente em Copa do Mundo.

Minha intenção é ainda jogar até uns 38 anos ou até onde agüentar. Esta posição de líbero me ajuda a encurtar os caminhos do campo e isto me dá prazer. Como vai me dar prazer também trabalhar com futebol depois de parar de jogar. Viver com a garotada, tirar a galera do morro e fazê-las esquecer o lado ruim da vida e de uma infância complicada é um de meus objetivos. E estudar. Apesar de mais velho, pretendo fazer uma faculdade. Antes tarde do que nunca. Sei que assim vou poder me tornar alguém importante fora do campo.

Casamento e família

Não podia deixar de falar de minha família, de minha esposa e filhos. São todos bênçãos e que me ajudam a fazer o melhor sempre. Fabiana eu conheci em Bangu, ainda pequeno. Tivemos muitos problemas antes de nos juntarmos definitivamente, mas ela sempre foi uma guerreira e uma amiga, me apoiando em tudo. O mais importante é que gostou de mim quando a fama era zero. Quando tinha 21 anos, me juntei com ela e fomos para Criciúma quando fui jogar lá. Ela estava grávida e seguramos a situação juntos. Por isto que a fábrica fechou. Nada mais de filhos. Agora a vontade é deixar a família bem, com meus filhos (Suelen, Lucas e Felipe) encaminhados e tranqüilos. Este é o meu grande sonho.
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